De pára-quedas no olho da tormenta

Aporto em Brasília num momento oportuno. Como não bastasse o medo e o estranhamento meu com a capital, chego quando o gongo soa para o início de uma luta. Na noite em que devolvo o meu amor à nossa terra, bamba como uma perna que me falta; noite em que descubro, entrelíneas, por um documentário sobre comunidades indígenas, que pode, e é provável que seja, que tenha tido início o meu rito de passagem para a vida adulta; nessa noite, salta em minha tela uma Marina Silva a puxar-me a manga da camisa: amanhã às 8h, concentração na Catedral de Brasília. Ato em Defesa das Florestas. Campanha #vetadilma.

Imagens do Ato realizado em São Paulo

Insatisfeito com o resultado das alterações no Senado do texto que versa sobre o Novo Código Florestal (Projeto de Lei 30/2011), o grupo que encontrei no gramado da Esplanada dos Ministérios deu continuidade ontem (7 de março) a ações, segundo o deputado Ivan Valente (PSol/SP), iniciadas há cerca de dois anos em defesa de um código de referência socioambiental.

Importante aqui será minha visão de pára-quedista, que vinha acompanhando o movimento de resistência através da internet e alimentando uma admiração pelo trabalho do movimento #florestafazadiferenca (@florestafaz), concebido pelo Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável, uma “coalizão de organizações da sociedade civil contrárias ao PLC 30/2011 e pela real e efetiva defesa de florestas e biomas brasileiros”.

Se a reforma do Código começa por um movimento de produtores rurais em resposta ao decreto presidencial (6.514/2008) que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais (9.605/1998), o Comitê e a Frente Parlamentar Ambientalista organizam-se e surgem como uma reação à reação.

Entrando no mérito do código e na estratégia de proteção ao patrimônio natural a que se presta, não me parece sequer possível conceber preservação ou conservação de processos ecológicos sem o reconhecimento por parte dos proprietários de terras da relevância desses elementos. Ainda que idealmente a polarização entre ruralistas e ambientalistas deva ser evitada é preciso registrar a retomada imediata dos rótulos em momentos de enfrentamento direto.

Para que sobre esse post não recaia a sina de abandono a uma pilha de favoritos interessantes, teço meus pontos.

Após o ato no gramado da Esplanada, palavras de ordem e roda de capoeira, fomos (pensei ser comigo) convocados ao carro de som para as diretrizes da sequência do ato. Havia sido previamente negociada, aparentemente por iniciativa da equipe da SOS Mata Atlântica,  a entrada dos manifestantes na Câmara. Acontece que, para assegurar algum controle, foram distribuídas camisas azuis com a hash-tag #manguefazadiferenca [um apelo à inesperada exposição que os manguezais sofreram com as alterações do texto no Senado]. Só ao tentar conseguir uma dessas camisas para viabilizar a minha entrada que pude perceber: a formação daquela massa de pessoas insatisfeitas não era mera casualidade. Eram membros de entidades e representantes de diversos segmentos da sociedade vindos de vários estados. [Teria vindo alguém do Ceará?]

Não consegui uma camisa, também não foi preciso. Lá dentro, pelo plano inicial, deveria haver uma conversa com as lideranças de cada estado e alguns deputados. Essa reunião de cúpula foi magicamente convertida em uma assembléia e seguimos, a multidão raivosa, para o auditório Nereu Ramos.

No auditório, explicaram aos pára-quedistas qual era a situação e quais as perspectivas de disputa política. Tranquilizamo-nos ao ouvir de Mauro Mantovani e de Zequinha Sarney que o presidente da Câmara, Marco Maia (PT/RS) havia se sensibilizado com a questão dos manguezais e que ele mesmo iria sugerir a supressão desse ponto.

Divididos entre as possibilidades do cenário, de atenuação dos retrocessos ambientais, de construção do apelo à presidenta pelo veto completo do texto e de adiamento da votação para depois da Rio +20, presenciamos a condução de um consenso à opinião de que não há operação que endireite o novo código, que  já nasceu torto.

Já em casa, descubro que a comissão cearense em defesa das florestas estava lá representada pela ONG Terrazul (Associação Civil Alternativa Terrazul). Aguardei para juntar-me a essa comissão até pouco depois das 16h, quando percebi que os derradeiros participantes despediam-se e o ato chegava ao fim. Antes disso, a maioria dos manifestantes havia se dispersado por conta do almoço e, os que retornaram ao auditório à tarde, porque a segunda parte do plano consistia em fazer pressão direta sobre os deputados, procurando-os em seus gabinetes para uma conversa tête-à-tête. Ponderei algumas vezes sobre correr sozinho os corredores da Câmara, mas convenci-me de que esse seria um novo salto e para isso meu pára-quedas necessitaria antes alguns ajustes. Despedi-me do espaço – foi um prazer – e saí pela porta. Quem sabe, na próxima, eu entre a pé?

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2 thoughts on “De pára-quedas no olho da tormenta

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