Mundando de assunto

Nove de julho. Encontro conforto dizendo assim pra mim:
Deixa o mundo ir pra onde ele quiser

Sempre que começo um discurso mais elaborado com aquele ar de “passa pra mim. Toca, que eu faço!” Esse gol aí eu perco. Chuto o vento ou enrosco o pé de apoio na própria canela. O bom dessa metáfora é que eu sei bem como é não ser o zagueiro que aparece de supetão na área e recebe aquele passe aliviado: “vai que é tua, cara.” Nos rachas do colégio, até que me passavam bastante, mas eu sempre carimbava a trave ou embarcava a bola. Quero dizer que, com o tempo, a galera ía se ligando. Olhavam pros cantos, checavam se a marcação nos outros não aliviava.

Não é que eu fosse o maior perna de pau, tinha meus momentos. Acho que o caso está mais para a tensão dos três toques. Sabe aqueles toques que anunciam a peça? A cortina abriu, os holofotes estão em você e o ato todo é um monólogo. Não sou de reagir às tensões com piripaque. Lembro que chorava para tomar gotinha, mas tenho uma boa explicação. Todo ano minha irmã dizia que eu tinha passado da idade da gotinha e que me poriam na fila da vacina. Puro terrorismo.

Eu era mesmo sócio-fundador do clube dos chorões. Chorava pra cortar o cabelo (e essa não tem uma boa explicação). Ainda assim, nunca fui de ficar chamando minha mãe. Se a cortina abriu e eu esqueci o texto, invento um e canto uma capela. As coisas costumam acabar bem. Então, pra que tanta lenga-lenga? Olha, eu completei 25 anos mês passado e continuo tendo aquela mesma sensação de que embarquei a bola quando ensaio falar de alguma coisa que penso ter o que dizer. Sinto a atenção das pessoas escapando feito a bola que corre longe léguas depois da linha do escanteio.

Como posso não ter desenvolvido alguma técnica? Nove de julho. Procuro conforto. Metade dos cabelos se foram. Tenho acompanhado o movimento dos barcos, o eterno movimento. Ando matutando e atento à hora de dizer alguma coisa. Gosto das coisas que se diz do mundo e ele ouve. Quero dizer uma dessas coisas. Julho de dois mil e doze. Ano fim do calendário Maia. Acho que perdi o time. Deixei que o silêncio sentasse. Preparei um café, servi com bolinhos. Prometi que contava um causo aos que ficassem.

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