Lousa das desilusões

Não quero ser uma pessoa sólida
Ajo feito britadeira
Tenho a minha própria escola
E só mantenho nela uma cadeira

Eu frequento essa escola, todo dia que me dão
Sou pagão: nunca agradeço nada a ninguém
Mas somos gratos, somos sim, em nossa escola
Porque nunca somos liberados, nunca estamos prontos
Acumulamos diplomas, boas notas e nunca nos formamos

Há uma normalista linda, sempre apenas uma
Nunca sempre a mesma, sempre apenas uma
A gente evita, mas por ela quase sempre se apaixona
Ela nos ensina a calma, tanto que transborda na gente
Tenho aprendido um pouco disso (Pode me passar a toalha?)
Ela diz que este deve ser um aprendizado de mim comigo
Eu rio: para quê essa modéstia, professora?
Ela diz: meu bem, cultive a calma, mas não pense em paz, que deixa a alma antiga
E eu digo: ê amiga, pra quê disfarçar a nossa solidão? (I’m not getting any younger)
Ela nos ensina a aproveitar as pausas.
Fica calada e dispensa a sala.
Também não digo nada, mas penso: professora, você nasceu para dar aulas.

Não quero ser uma pessoa sólida
Ajo em meu referencial aéreo
Pulverizo cola para aqueles que por impulso se rarefizeram
Não nego que quero vocês como eu quero
Vejo que de fato existe, aqui do alto, um tom mais leve na palidez desse pessoal
Dentre outros tantos acertos, não quero ser uma pessoa pálida
Não sei se quero ter alguma cor (Me passa a cola de isopor?)
Disse que somos gratos por não deixarmos nunca a nossa escola
Mas acontece que não sei se dessa forma poderemos ter e manter em nós um chão que assente e esquente e permita que se erga e reine, para o tempo que nos reste, um e apenas este, reles e hercúleo, solitário amor.

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