Dos dias úteis

Quando começa a semana, o vendaval dos dias úteis vem rasgar minhas roupas
Vejo os cães farejadores… são pessoas
Eu, por contraste, o que me torno?
Vem o trem no meu caminho, e eu paro
Vem o herói salvar-me, é claro, porque este é o seu trabalho

Quando começa a semana, eu penso em fechar os olhos até que termine
Procuro metas nas metas das pessoas
Procuro somar-me à falange
Olho para mim e não alcanço foco: estou terrivelmente longe

Procuro sentar-me às salas de espera
Procuro deitar-me às onze com elas
Procuro por filas, molhos, matilhas, bandos, manadas
Tento todos os coletivos
Tento tudo, toda espécie de todo, e nada

Quando começa a semana, eu viro uma ilha
Ervilha de charada infame
Rima pobre e subnutrida
Gente que a gente não sabe o nome

Corre sobre meu corpo a semana
Cobre-me de poeira e lama
Passa por mim troglodita
Segue sem esperar resposta

Puxo o punhal da calça, lanço impropérios e pragas
Tomo meus trapos e risco
Cuspo um verso maldito, firo o primeiro que passa
Sangra de morte o unguento, lázaro pária azarento
Pede-me um pé de cachaça
Tu, indegente, desgraça
Passa tua raiva pra mim, toda semana é assim
Fim de semana, fim da picada.

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