Pulga Nº1

Tenho, atrás da orelha, todas as pulgas
Bichos criados a soro e natas de culpa
Ouço os bips daquele aparelho médico de nome escorregadio
É que a cabeça falha sim, mas mais ainda sofre o coração o peso das ressalvas

Entre os machismos, as amarras e as fobias diárias
Eu tento me trabalhar um nível acima do tapete
Claro que me confundo com qualquer produto de meu tempo
Tento de tudo, mas conseguir, eu só consigo ir naquilo em que este tempo, per se, já se abre

Duas curtas palmas. Agora um pouco mais de atenção.
Faço-me um prólogo e assim os preparo para sentir meu desajuste.

Gosto das manhãs de fins de semana, gosto mesmo é de todo o fim de semana.
Durmo excessivamente tarde e acordo no primeiro susto. Quase não durmo.
É somente na madrugada que meu pulmão se expande. Eu gosto paca da madrugada.
Uso de fugas, levo adereços, preparo umas falas. Troco de óculos, troco a postura, mostro minhas asas.

Fortaleza, 24°, 23h. Noite pequeno-médio-burguesa. Lavo a retina e curo minhas mágoas.
O DJ faz pouco de minha presença ou pode ser que sejamos poucos ali como eu.
O Barman sobe no balcão e puxa um funil.
Eu varro a memória recente e checo a coordenada: Ok, confere. Brasil.
Sinto aquela coceira estranha que só ver tv me dá.
Mas não é tv. (…)
Suave descarga do hormônio da arrogância no sangue.
Eu luto contra. O entretenimento é legítimo. A diversão o é. Triste daquele homem vestido de toga e martelo. Dou a ele uma cerveja, apresento uns amigos e sumo na névoa do segundo plano, numa dancinha cretina.

Este homem é um grilo. O grilo Caxias. Ele penteia o cabelo pro lado e dos 20 aos 45 usará barba. O Caxias, sempre que sai de casa, leva uma bola. Desde a escola, ele aprendeu com a professora de história: a sociedade se divide em classes. Aquilo fazia todo o sentido pro Caxias. Na terceira série, ele pertencia à turma D. Na quarta, turma B (manhã). Da quinta em diante, Caxias não saiu mais da G. Fato é que o grilo sempre teve a sua turma. E cada turma, uma classe.

Naquela noite, como era de costume, Caxias levou sua bola pra boate. O martelo era um detalhe, mas a toga é regra para todo grilo que se preza. É o que deles se espera. Quando eu fui me ter com o Caxias, ele já havia levantando a bola. Eu logo vi que aquilo não podia terminar bem. Embarcaram a bola do Caxias. Chutaram longe, em poucos minutos, janela afora. Triste daquele homem vestido de toga e cartola. Ele não se diverte.

Naquela noite, Caxias desceu o martelo e jogou minha cerveja fora. A bola do grilo é o grilo na noite. É a bolha d’água na sala de óleo. É o menino que trocou de sala pra fugir da prova. A bola do grilo lembra o mundo lá fora. Se a bola corta a lombra da juventude, a juventude corta a bola. Pobre do homem vestido de toga, ele não se diverte. Pobre dos meninos que fazem provas, eles não se divertem. Pobre de mim, guardião das histórias, que tento me divertir. Pobre da noite. Pobre da bola.

“Talvez o tempo possa me livrar da culpa, que eu não sei se vem de mim ou da cruz”

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