Eu vi El Rey andar de quatro

Os meus músculos são poucos pra essa rede de intrigas. Mas tenho nos olhos quimeras, tenho séculos de espera e eu sempre respirei minha intenção de vida. Com todas as contradições, daqui, desse mundo de conforto que aprendi a achar normal, eu vou empurrando as paredes, roendo amarras e conhecendo as cidades e as pessoas invisíveis às quais nunca fui apresentado. Minha revolta é algo próxima dessa gente simples, facilmente cooptada. Eu trago a crítica e a fé num balanço de sangue imiscível no peito. Eu tenho um jeito de quem não descansa. Se falo pouco é porque estou depurando, se me isolo é porque o ruído me engana. Palavras, sons são meus caminhos pra ser livre e eu não direi nem cantarei nada cujo som não me conduza à vida que pretendo. A vida que pretendo deixou há muito de ser o eco amplificado do meu próprio grito. A vida que pretendo vai com o vento, que penteia o dorso da formiga e derruba as telhas do palácio. O vento nunca vai pra qualquer canto, ele é vapor das horas, irmão do tempo. Por muito tempo eu cantei pra quem não quis me ouvir. Hoje as voltas do mundo me arranham a pele e vou deixando por menos. Há sonhos maiores e mais palpáveis nas galerias subterrâneas e no pálio de estrelas. Eu vi El Rey andar de quatro e ri, regozijei, rejuvenesci, chorei por aqueles a quem hora tempestuosa ceifou, mas não parei, porque no barro do muro do templo retêm-se a mortalha das almas e é justo detrás das estruturas armadas, ruídas que os espíritos respiram e, desfraldados, colorem suas fardas.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s