Dentro do terreiro o quê?

“Hay que endurecer sin perder la ternura.” Ouvi da boca do governador.

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Fonte: Facebook

O poder faz sei lá o que com os homens. E a nós? O que a cidade nos fez? Estou certo do que o que eu via na madrugada de ontem no parque do Cocó pouca gente enxergava. Vou dizer o que vejo: em meus olhos pulsa a vida baldia, com o holofote digno dos protagonistas. A cada sopro de vento, sobre o meio-fio, nas guaritas de porteiros e aos pés de poste, lá está um pulso de vida daninha. Daninho é pejorativo para estas espécies aventureiras. Eu pouco sei sobre a vida, mas me pus a estudá-la. Aprendi, de cara, que sob o asfalto persiste um solo sem muitos horizontes.

Não hesitem em topar minhas sugestões de metáforas, Aqui é tudo proposital. Dentro do mar tem rio, dentro de mim tem o quê?

Este mês terei meu debute (penso que já bastante atrasado) no mundo das publicações acadêmicas. Uma humilde resenha de um dos pilares de minha pesquisa: o livro “Rios e cidades: ruptura e reconciliação”. Achei por bem chamar meu texto assim: “Corpos d’água, caixões de concreto”. O que isto lhes sugere?

Outra coisa que aprendi: por trás, por dentro ou por fora dos canais e leitos retificados, resistem, e teimam com a existência, rios, rios urbanos. Antes eu falava dos solos sufocados, solos urbanos. Existem também as encostas, encostas urbanas. Há uma geomorfologia específica para a cidade, a geomorfologia urbana. Uma dinâmica própria que não acontece apenas interna aos limites dos parques, zoológicos e áreas verdes residuais. Isto é o que se pode chamar de natureza urbana: um grande sistema de complexidade elevada, para o qual não se adequam os postulados disciplinares tradicionais.

Há alguns dias li, na seção de comentários desta notícia:

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pragmatismo ambiental

Fonte: O POVO

Escolhi este caso para representar algo que acredito permear o imaginário do discurso e da postura pragmática em relação ao viaduto do Parque do Cocó, ao Acquário, à ponte estaiada. Aqui, de coração, esta me parece uma questão metade de sensibilidade, metade epistemológica. Se estiver certo, nenhuma dessas dimensões é coisa que a boa retórica dê conta de estremecer. Quero dizer que posso por o sangue e as tripas para fora ao recitar o mais lindo dos poemas já feito que, aos ouvidos do governador, não ponho fé dar pé.

Não é a fé que faia. Tentei explicar ao pronto-comentarista que, sim, os terrenos baldios cumprem um papel ambiental nas cidades. Que áreas urbanas são espaços de excelência em impermeabilização. Que toda cobertura vegetal e solo não compactado que sejam retardam o escoamento das águas pluviais e minimizam os impactos de inundações. Que, sim, o acúmulo de água representa também um risco à saúde da população pela proliferação de vetores, mas que a água acumulada nas cotas menores trazem, além desse risco, inúmeros outros (sinérgicos inclusive). E, por fim, que não, suprimir a complexidade não é solução.

A tônica do debate ontem, ainda que não explicitada, me pareceu esta. Tudo é passível de recuperação. Negociemos. Quão boa lhes parece a proposta de terminarmos de cavar esse buraco e depois tapamos 20 outros que vocês quiserem, com pedrinhas coloridas e tudo o que tiver direito?

Perdoem este texto longo, é que senti a responsabilidade de dizer isto, enquanto biólogo e, logo, espero, mestre em desenvolvimento sustentável. Antes, porém, cidadão de bem e de mal, vândalo, ecochato, castanholeira ou mangue vermelho. A lógica das compensações não vale para a natureza nem para populações vulnerabilizadas. A ideia de mobilidade (das relações e dos elementos) é uma abstração econômica que se mostrou limitada até ao manejo dos fluxos de capitais. Devo deixar isso claro: o meio ambiente e o tecido social de Fortaleza, do Estado do Ceará, do Nordeste e de muitas outras capitais e interiores do Brasil e mundo afora apresentam-se degradados. São serviços públicos e ambientais precarizados e deficientes. Não há espaço para negociação dos elementos básicos de suporte à vida. Quanto já ultrapassamos as capacidades regenerativas locais e regionais? Temos nos sustentado sobre a elasticidade dos ecossistemas e das sociedades. Porque a vida é, de fato, incrivelmente resiliente, mas o que temos feito nesses últimos meses é nada mais que uma clara demarcação da linha da dignidade dessas muitas questões e temos lutado por elas, sem recuo.

“Tudo tem ou um preço ou uma dignidade. O que tem preço pode ser substituído por alguma outra coisa equivalente; por outro lado, o que está acima de qualquer preço e, portanto, não admite equivalente tem dignidade. Mas o que constitui a condição sob a qual alguma coisa pode ser, sozinha, um fim em si mesma, não tem mero valor relativo, isto é, um preço, mas um valor intrínseco, ou seja, uma dignidade.”

I. Kant, Foundations of the Metaphysics of Morals.

Agora eu respondo ao senhor, meu vizinho (pobre homem descrente das instituições e dos homens), com quem comentei esta manhã no elevador sobre a visita do nosso governador ao acampamento.

A idade lhe pesa, senhor, mas a sabedoria ainda não lhe fez a grata visita. Aquela gente eu não conheço, mas me parece, só me parece, que não estão esperando essa propina de que me falas. Ao que me parece são jovens e rejuvenescidos cujo trato digestivo reage fortemente a absurdos.

Há que endurecer, senhor, há que envelhecer. E de que te vale o tempo, o parco tempo teu, se sobre ele não afloras?

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