Resistir como quem deseja

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Foto: Deivyson Teixeira / O POVO

Dos meus relatos cada vez mais pessoais.

A quem eu falo? Calo quase sempre, mas por quê?

Acordo às 9h. Tarde. “No cinto de utilidades, as verdades: deus ajuda a quem cedo madruga em Gotham City.” O fuzuê a essa hora já corria quente no terreiro lá de baixo. Eu pensava nos meus prazos e dava uma de meu próprio chefe. “Quando sai esse capítulo?”. Fora das redes sociais, recorro aos jornais: “Oficial de justiça notifica o despejo. Prazo expira por volta das 10h.” Ok. E agora? Termino meu café, visto uma roupa qualquer como alguém que sempre sai para uma caminhada matinal no parque. Aviso: “vou ali, rapidinho, só sentir o clima”. Muita gente, clima tenso… e mais gente chegando. Vinagre, mochilas, tinta vermelha, correntes e cadeados. Olhares sérios, frases curtas. Observo, como sempre faço. (…) Haverá guerra. Fico um tempo introspecto e busco alguma sensatez. O que o médio eu faria? Essa é uma pergunta necessária para gente como eu, de equilíbrio duramente conquistado. Compreendo quem eu sou e tenho sido, o que eu represento para os que me cercam e o que a vida cobra para dar o que dela espero – “Não quero lhe falar meu grande amor”, minha sabedoria é seiva drenada dos discos – e concluo: não tenho tempo de temer a morte. É preciso estar atento e forte. Volto ao apartamento, 8o andar, abro a vidraça e grito… brincadeirinha. Troco a bermuda por uma calça, a câmera por um tablet, a chinela por um tênis. Levo água e duas bananas.

“Medo, medo, medo… Eu tenho medo, estrela do norte, paixão, morte é certeza, medo Fortaleza, medo Ceará.” [flashforward]

“Eu tenho medo e já aconteceu.” Estamos vivos sabe-se deus porquê. Não eram balas de borracha, cassetetes ou armas de choque mais. Escopetas, fuzis e siglas da opressão. GATE/RAIO/ROCA/CHOQUE/CANIL/COTAM. As viaturas azul-bebê? Não, preto-carvão! Eu falo isso não para assustar. Tenho ampliado o meu horizonte histórico como nunca antes. Se puser os óculos, até consigo ver o Brasil democrático, mas bote léguas longe. O que venho dizer é qualquer coisa trágica para quem cresceu numa Fortaleza periférica, pacata, mudou-se para o “centro” e foi cedendo espaço para o medo. Agora eu vejo o erro que cometemos. Para evitar os aborrecimentos, para bem criar nossos filhos entregamos nossas liberdades de existir e os espaços possíveis a quem se mostrava mais interessado e disposto a geri-los. Internalizamos uma espécie de noção vesga de qualidade de vida e bem-estar a altas doses de entretenimento e delírio. Topamos a competição, a concorrência e se o macaco vier se enxerir, mandamos ele de volta pro seu galho. Vi essa discussão em Brasília e experienciei o mesmo no prédio que cresci com meus pais. Pessoas reclamavam da falta de convívio e mútua solidariedade nas superquadras, do desconhecimento da vida do vizinho, do que faz, do nome, dos gostos. De certa forma procuramos isso, vemos valor em não dar conta de nossas vidas para ninguém e gozarmos do desprezo do olhar que julga e reprime. Mas que sociedade é essa que não se olha? Que não circula e não conversa? Ok. Vamos ao ponto.

Nós, acampados, eco-escória, dobramos parte da imprensa, dobramos a OAB, dobramos a arquidiocese, dobramos profissionais das mais duras e embrutecidas formações e seguimos cativando. Eu pergunto: quem cria o hiato? O fosso do estranhamento e da incompreensão? Quem desenha as caricaturas e mutila a diversidade? Cabem aí vários nomes, super-estruturas, classes, fantasmas. Eu tenho observado esse fenômeno internet com muita curiosidade. As redes me fazem um mal danado, porque me roubam a paz e enchem a sala de ruído e velocidade. A vida lá fora é tão tranquila. Os desejos são tão mais palpáveis. Os sonhos, que não sofrem mesmo a corrosão do tempo, sentam-se com mais frequência e puxam papo. Eu vejo em toda essa pujança tecnológica grandes possibilidades e sou facilmente tragado. Nesse momento de lucidez, torno a esta rede para dizer uma grande trivialidade: as coisas que desejamos sempre estiveram lá fora, seja no quintal ou no extremo arroio do mundo. A alucinação torna tudo suportável e prazeroso, eu sei. Mas me pergunto e pergunto a vocês, quantos dos problemas desta vida urbana desumana tornaram-se hidras cabeludas pelo nosso simples e reticente desinteresse?

Eu ontem quis me desesperar ao ouvir o vereador Carlos Mesquita dizer por A mais B que não poderia se responsabilizar com o que viria a acontecer se os acampados insistiam em resistir à retirada. Eu quis me desesperar quando ouvi o governador escorregar feito um muçum ao dizer que não cabia a ele descumprir uma ordem judicial, caso houvesse uma decisão da justiça.

Eu, talvez o mais covarde daqueles, por algum motivo me mantive hoje ali e vi a morte de perto. Vale dizer que não circulo nas periferias dessa cidade, a elas nunca fui de fato apresentado. Estou certo que o estado de exceção que há décadas restringiu-se às favelas e periferias, transbordou para as centralidades desde de junho e que é isso que temos sentido na pele. Sim, a imagem não é nada boa.

Digo que quis me desesperar, porque, no fim, não o fiz. Encontrei naquele acampamento um pedacinho do mundo que, ou fazia tempo eu não vivia ou quem sabe eu nunca conheci. Eu conheci representantes de toda a rica fauna urbana fortalezense. Gente a quem eu nunca fui apresentado. Não me dobrei, porque já nasci cativado pela vida e pela diversidade. Deixo, no entanto, esta singela mensagem, porque viver, dizem os compositores baianos amigos meus e também os rapazes latino-americanos, é sempre melhor que sonhar: quantos amigos, paisagens e pedaços da cidade te foram roubados?

Vamos recuperá-los?

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